sábado, 14 de junho de 2014

Palestra "Arte e Educação"

Palestra proferida na XVII Semana de Filosofia da Universidade Metodista de São Paulo - 29 de maio de 2014.




sexta-feira, 23 de maio de 2014

O HOMEM MEDÍOCRE - Ernest Hello


Diz numa reunião que algum homem célebre é um homem medíocre, e todos ficarão espantados; dirão que és paradoxal. É que ninguém sabe o que é um homem medíocre.

O homem medíocre é tolo, estúpido, imbecil? De maneira alguma. O imbecil está numa extremidade do mundo, o homem de gênio na outra. O homem medíocre está no meio. Não digo que ocupe o centro do mundo intelectual, o que seria outra coisa; ele está no meio.

O homem medíocre estará então no que se chama em filosofia, em política, em literatura, um justo meio? Encaixa necessária e certamente nessa opinião?

Também não.

Quem está no justo meio sabe disto: tem a intenção de estar nele. O homem medíocre está no justo meio sem o saber. Está nele por natureza, não por opinião; por caráter, não por acidente. Mesmo que seja violento, irritado, extremo; mesmo que se distancie quanto for possível do justo meio, será medíocre. Terá mediocridade na violência.

O traço característico, absolutamente característico do homem medíocre, é sua deferência pela opinião pública. Jamais fala, sempre repete. Julga um homem por sua idade, sua posição, seu sucesso, sua fortuna. Tem o mais profundo respeito por quem é conhecido, não importa por quê; por quem tenha causado uma grande impressão. Adulará seu mais cruel inimigo, se esse inimigo tornar-se célebre; mas fará pouco caso de seu melhor amigo, se ninguém o elogia. Não concebe que um homem ainda desconhecido, um pobre homem, um passante, que é tratado de maneira comum, com desembaraço, possa ser um homem de gênio.
Se fores o maior dos homens, acreditará, se te conheceu criança, honrar-te muito comparando-te a Marmontel. Não ousará tomar a iniciativa de nada. Suas admirações são prudentes, seus entusiasmos oficiais. Despreza os que são jovens. Mas, quando tu grandeza for reconhecida, exclamará: bem que eu sabia! Mas nunca dirá, frente à aurora de um homem ignorado: eis a glória e o futuro! Aquele que pode dizer a um trabalhador desconhecido: meu filho, és um homem de gênio! – este merece a imortalidade que promete. Compreender é igualar, disse Rafael.

O homem medíocre pode ter esta ou aquela aptidão especial: pode ter talento. Mas a intuição lhe é interdita. Não tem uma visão superior; não a terá jamais. Admite às vezes uma idéia, mas não a segue em suas diversas aplicações; e se lhe é apresentada em termos diferentes, não a reconhece: rejeita-a.
Admite às vezes um princípio; mas se chegares às conseqüências desse princípio, dirá que exageras.
Se a palavra exagero não existisse, o homem medíocre a inventaria.

O homem medíocre pensa que o cristianismo é uma precaução útil, que seria imprudente dispensar. Entretanto detesta-o interiormente; algumas vezes, tem por ele um certo respeito convencional, o mesmo respeito que tem pelos livros em voga. Mas tem horror ao catolicismo: considera-o exagerado; gosta mais do protestantismo, que acha moderado. É amigo de todos os princípios e de todos os contrários.
O homem medíocre pode ter estima pelas pessoas virtuosas e pelos homens de talento.
Tem medo e horror dos santos e dos homens de gênio; acha-os exagerados.

Pergunta para quê servem as ordens religiosas, sobretudo as ordens contemplativas. Admite as irmãs de São Vicente de Paulo, pois sua ação realiza-se, ao menos parcialmente, no mundo visível. Mas os carmelitas, diz ele, para quê servem?

Se o homem naturalmente medíocre torna-se seriamente cristão, deixa absolutamente de ser medíocre. Pode não se tornar um homem superior, mas é arrancado da mediocridade pela mão que empunha a espada. O homem que ama jamais é medíocre.

O homem verdadeiramente medíocre admira um pouco todas as coisas; nada admira com ardor. Se lhe apresentas seus próprios pensamentos, seus próprios sentimentos com um certo entusiasmo, ficará descontente. Dirá que exageras; gostará mais de seus inimigos se forem frios, que de seus amigos se forem quentes. O que detesta acima de tudo, é o calor.


O homem medíocre só tem uma paixão, o ódio ao belo. Talvez repita com freqüência uma verdade banal com um tom banal. Exprima a mesma verdade com esplendor e ele te vai maldizer; terá encontrado o belo, seu inimigo pessoal.

O homem medíocre ama os escritores que não dizem nem sim nem não sobre qualquer coisa, que nada afirmam, que conciliam todas as opiniões contraditórias. Gosta ao mesmo tempo de Voltaire, Rousseau e Bossuet. Gosta que se negue o cristianismo, mas que se o negue polidamente, com certa moderação nas palavras. Tem um certo amor pelo racionalismo e, coisa bizarra, também pelo jansenismo. Adora a profissão de fé do vigário sabichão.

Acha insolente toda afirmação, porque toda afirmação exclui a proposição contraditória. Mas se fores um pouco amigo e um pouco inimigo de tudo, pensará que és sábio e reservado. Admirará a delicadeza de teu pensamento, e dirá que tens o talento das transições e das nuances.

Para escapar à acusação de intolerância que lança a todo aquele que pensa com vigor, vai se refugiar na dúvida absoluta; mesmo assim não dá à dúvida seu próprio nome. Procura dar-lhe a forma de uma opinião honesta, que reserva os direitos da opinião contrária, com a aparência de dizer alguma coisa sem dizer absolutamente nada. É preciso acrescentar a cada frase uma perífrase adocicante: parece, se ouso dizer, se é permitido exprimir-se assim...

Resta ao homem medíocre em atividade, em exercício, uma inquietude: o medo de comprometer-se. Exprime também alguns pensamentos roubados do senhor de La Palisse, com a reserva, a timidez, a prudência de um homem temeroso de que suas palavras ousadas demais possam abalar o mundo.
A primeira frase do homem medíocre que julga um livro trata sempre de um detalhe, e habitualmente de um detalhe de estilo. É bem escrito, dirá, quando o estilo é fluente, morno, incolor, tímido. É mal escrito, dirá, quando a vida circula na tua obra, quando forjas tua linguagem como quem fala, quando dizes teus pensamentos com aquele frescor que é a sinceridade do escritor. Ama a literatura impessoal; detesta os livros que obrigam a refletir. Gosta dos que se parecem com todos os outros, dos que confirmam seus hábitos, que não explodem seu molde, que permanecem em seus limites, dos que sabemos de cor antes de serem lidos, porque são semelhantes a todos que lemos desde que aprendemos a ler.


O homem medíocre diz que Jesus Cristo deveria se ter limitado a pregar a caridade, sem fazer milagres; mas detesta ainda mais os milagres dos santos, sobretudo dos santos modernos. Se lhe contas um fato sobrenatural e contemporâneo, dirá que as lendas fazem um bom efeito nas vidas dos santos, mas que devem se restringir a elas; e se observares que o poder de Deus é o mesmo de sempre, responderá que exageras.

O homem medíocre diz que há o bem e o mal em todas as coisas, que não devemos ser absolutos em nossos julgamentos, etc, etc.

Se afirmas fortemente a verdade, o homem medíocre dirá que tens excessiva confiança em ti mesmo. Ele, que tem tanto orgulho, não sabe mesmo o que é o orgulho! É modesto e orgulhoso, submisso perante Voltaire e revoltado contra a Igreja. Sua divisa é o grito de Joad: corajoso somente contra Deus! [Racine, Atalia, ato III, cena VII]

O homem medíocre, em seu pavor das coisas superiores, diz que estima sobretudo o bom senso; mas não sabe o que é o bom senso. Entende por esta expressão a negação de tudo o que é grande.

O homem medíocre pode muito bem ter essa coisa sem valor que chamam, nos salões, de espírito; mas não pode ter inteligência, que é a faculdade de ler a idéia no fato.

O homem inteligente eleva a cabeça para admirar e adorar; o homem medíocre eleva a cabeça para zombar: tudo que está acima dele parece-lhe ridículo, o infinito parece-lhe o nada.

O homem medíocre não crê no diabo.

O homem medíocre lamenta que a religião cristã tenha dogmas: gostaria que ela ensinasse somente a moral; e se lhe dizemos que sua moral decorre dos dogmas, como a conseqüência decorre do princípio, responderá que exageramos.

Confunde a falsa modéstia, que é a mentira oficial dos orgulhosos de baixo calão, com a humildade, que é a virtude simples e divina dos santos.

Entre esta modéstia e a humildade, eis a diferença:

O homem falsamente modesto acredita que sua razão é superior à verdade divina e independente dela, mas acredita ao mesmo tempo que ela é inferior à do sr. Voltaire. Acredita ser inferior aos mais rasteiros imbecis do século dezoito, mas zomba de Santa Teresa.

O homem humilde despreza todas as mentiras, por mais que sejam glorificadas por toda a terra, e se ajoelha perante toda verdade.

O homem medíocre parece habitualmente modesto; não pode ser humilde, ou deixará de ser medíocre.
O homem medíocre adora Cícero, cegamente e sem restrições; não o chama por seu nome, mas “o orador romano”. Cita de tempos em tempos: ubinam gentium vivimus?

O homem medíocre é o mais frio e o mais feroz inimigo do homem de gênio.

Opõe-lhe a força da inércia, resistência cruel; opõe-lhe seus hábitos maquinais e invencíveis, a cidadela de seus velhos preconceitos, sua indiferença impertinente, seu ceticismo maldoso, seu ódio profundo que se assemelha à imparcialidade; opõe-lhe a arma das pessoas que não têm coração, a dureza da estultice.
O gênio conta com o entusiasmo; entrega-se a ele. O homem medíocre não se entrega jamais. Não tem entusiasmo nem piedade: duas coisas que vão sempre juntas.

Quando o homem de gênio desanima e acha que está para morrer, o homem medíocre fica satisfeito; alegra-se com essa agonia. Diz: bem que eu tinha adivinhado, esse homem estava num mau caminho; tinha muito confiança em si mesmo! Se o homem de gênio triunfa, o homem medíocre, cheio de inveja e de ódio, opõe-lhe ao menos os grande modelos clássicos, como diz, os homens célebres do último século, e tratará de se convencer que o futuro o vingará do presente.

O homem medíocre é muito pior do que pensa, e do que pensam dele, pois sua frieza oculta sua maldade. Jamais se arrebata. No fundo, gostaria de eliminar as estirpes superiores: como não pode, vinga-se achincalhando-as. Fala pequenas infâmias, que, por serem pequenas, não parecem ser infames. Fere com alfinetes, e regozija-se quando o sangue corre, ao passo que o assassino teme o sangue derramado. O homem medíocre nunca tem medo. Sente o apoio da multidão dos que se lhe assemelham.


O homem medíocre é, na ordem literária, o que na ordem social denomina-se um homem de boa sorte. Os sucessos fáceis são para ele. Ignorando o que é essencial e captando o que é acidental em todas as coisas, corre atrás das circunstâncias; segue ao sabor das ocasiões; e quando é bem-sucedido, torna-se dez vez mais medíocre. Julga-se, como julga os outros, pelo sucesso. Enquanto o homem superior sente sua força interiormente, e a sente sobretudo se os outros não a sentem, o homem medíocre pensa ser um tolo quando o julgam tolo, e seu equilíbrio depende dos cumprimentos que recebe; sua mediocridade aumenta na razão de sua importância.

Mas enfim, perguntarão, por quê e como é bem-sucedido?

Sentado em teu escritório, diante de um livro assinado por um nome conhecido, a que o falatório público reclama sua atenção, nunca te aconteceu fechá-lo com uma tristeza inquieta e dizer para ti mesmo: – como estas páginas levaram o autor à reputação, em vez de condená-lo ao esquecimento? Ou: como aquele outro nome, que poderia figurar ao lado dos grandes nomes, é absolutamente desconhecido dos homens? Porque os amigos raros, os raros amigos deste em que penso neste momento murmuram timidamente seu nome entre si, não ousando pronunciá-lo diante de todos, por não ter a sanção de todos? A glória tem seus segredos, ou tem seus caprichos?

Eis a resposta: a glória e o sucesso não se assemelham; a glória tem segredos, o sucesso tem caprichos.

O homem medíocre não luta: pode vencer inicialmente; sempre fracassa depois.

O homem superior luta primeiro e vence depois.

O homem medíocre vence porque segue a corrente; o homem superior triunfa porque vai contra a corrente.

O procedimento do sucesso é caminhar com os outros; o procedimento da glória é caminhar contra os outros.

Todo homem que torna seu nome conhecido produz esse efeito, pois é o representante de uma certa parte da espécie humana.

Eis a solução de todos os enigmas.

As raças superiores se fazem representar pelos grandes; as raças inferiores se fazem representar pelos pequenos.

Ambas têm seus deputados na assembléia universal.

Mas umas dão a seus deputados o sucesso, as outras dão-lhes a glória.

Aqueles que lisonjeiam os preconceitos, os hábitos de seus contemporâneos, ganham impulso e chegam ao sucesso: são os homens de seu tempo.

Os que recusam os preconceitos, os hábitos; os que respiram antecipadamente os ares do século seguinte, impulsionam os outros, e chegam à glória: são os homens da eternidade.

Eis porque a coragem, que é inútil para o sucesso, é condição absoluta para a glória. São grandes os que se impõem aos outros em vez de suportá-los; que impõem a si mesmos em vez de suportar-se; que sufocam com a mesma força seus próprios desânimos e as resistências exteriores. O que denominamos grandeza é a irradiação do poder.

O homem medíocre que alcança o sucesso encarna os desejos atuais dos outros homens.

O homem superior que triunfa encarna os pressentimentos desconhecidos da humanidade.

O homem medíocre pode mostrar aos homens os aspectos conhecidos de suas próprias almas.

O homem superior revela aos homens os aspectos desconhecidos de suas próprias almas.

O homem superior desce até o fundo de nós mais profundamente do que costumamos descer. Dá voz aos nossos pensamentos. É mais íntimo a nós que nós mesmos.
Irrita-nos e regozija-nos, como alguém que nos acordasse para acompanhá-lo a ver o nascer do sol. Arrancando-nos de nossas casas para conduzir-nos aos seus domínios, inquieta-nos, e ao mesmo tempo nos dá uma paz superior.

O homem medíocre, que nos deixa ali mesmo onde estamos, inspira-nos uma tranqüilidade morta que é diferente da calma.

O homem superior, incessantemente atormentado, dilacerado, pela oposição entre o ideal e o real, sente melhor do que ninguém a grandeza humana, e melhor do que ninguém a miséria humana. Sente-se mais fortemente chamado ao esplendor ideal, que é a finalidade de todos nós, e mais mortalmente deteriorado pela velha decadência de nossa pobre natureza; e comunica-nos esse dois sentimentos que tem. Ilumina em nós o amor do ser, e desperta em nós incansavelmente a consciência do nosso nada.

O homem medíocre não sente nem a grandeza, nem a miséria, nem o Ser, nem o nada. Não é nem deslumbrado, nem precipitado; fica no penúltimo degrau da escada, incapaz de subir, excessivamente preguiçoso para descer.

Em seus juízos e em suas obras, substitui a realidade pela convenção, aprova o que encaixa em seu repertório, condena o que escapa às denominações, às categorias que conhece, receia o espanto e, não se aproximando jamais do terrível mistério da vida, evita as montanhas e os abismos pelos quais ela conduz seus amigos.

O homem de gênio é superior àquilo que executa. Seu pensamento é superior à sua obra.

O homem medíocre é inferior àquilo que executa. Sua obra não é a realização de um pensamento: é um trabalho feito de acordo com determinadas regras.

O homem de gênio sempre acha sua obra inacabada.


O homem medíocre infla-se com a sua, cheio de si mesmo, cheio de nada, cheio de vazio, cheio de vaidade. Vaidade! Esse odioso personagem está por inteiro nestas duas palavras: frieza e vaidade!


In Hello, Ernest, L'Homme, Paris, Perrin et Cie, Libraires-Éditeus, 1894, p. 57-67.

domingo, 13 de abril de 2014

27º FITUB - Conversas sobre Teatro: Teatro e Plateia, com Walter Lima Torres e Roberto Mallet

No dia 9 de abril de 2014, a convite da profa. Pita Belli, coordenadora do Festival Internacional de Teatro de Blumenau, em sua 27ª edição neste ano, participamos, eu e Walter Lima Torres, de uma conversa com alunos de teatro, atores e artistas da cidade, sobre o tema desta edição: Teatro e Plateia.

Publico abaixo, por ordem, a fala do prof. Walter, a minha, e parte de nossa conversa com os presentes.






domingo, 26 de janeiro de 2014

Poemas na Rede

Nesta página colocarei gravações de poesias.  São exercícios breves, em que não me detenho muito em "trabalhar" o texto, mais no intuito de espalhar um pouco de poesia na rede do que de fazer obra de arte (da arte de falar).  Espero que à medida que for gravando os textos a qualidade técnica vá melhorando.  Sempre disse muita poesia e prosa.  Mas sempre ao vivo.  E como sou ator, boa parte da interpretação está em toda a configuração corporal, e não apenas na voz.  É preciso incluir na fala elementos expressivos que se encontram no gesto, no olhar, no contato presencial que a gravação sonora elimina.  Ao mesmo tempo, não quero carregar a interpretação; pelo contrário, busco que fique na memória do ouvinte o poema, não o ator - nem mesmo o autor, mas o poema.


    Cecília Meireles - Neste longo exercício de alma

    Cecília Meireles - E assim passamos a tarde

    Mário Quintana - Canção do Amor imprevisto

    Mário Quintana - Recordo ainda...

    Fernando Pessoa - Poema em Linha Reta

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Como falar poesia - Leonard Cohen

Toma a palavra borboleta. Para usar esta palavra não é preciso fazer a voz pesar menos que uma onça ou adorná-la com pequenas asas empoadas . Não é preciso criar um dia de sol ou um campo de narcisos . Não é preciso apaixonar-se, nem apaixonar-se por borboletas. A palavra borboleta não é uma borboleta real. Uma coisa é a palavra, outra a borboleta. Se as confundires as pessoas terão o direito de rir-se de ti. Não faças muito com a palavra. Estás tentando sugerir que amas as borboletas melhor do que os outros, ou compreender realmente a sua natureza? A palavra borboleta é apenas um dado. Não é uma oportunidade para adejar, voar, amigar-se com flores, simbolizar beleza e fragilidade, ou personificar de qualquer forma uma borboleta. Não representes palavras. Nunca representes palavras. Nunca tentes elevar-te do chão quando falares de voar. Nunca feches os olhos e inclines a cabeça para o lado quando falares de morte. Não fixes teus olhos ardentes em mim quando falares de amor. Se quiseres impressionar-me ao falares de amor, põe a mão no bolso ou sob tuas roupas e brinca contigo mesmo. Se a ambição e a fome de aplausos levaram-te a falar de amor, tens que aprender a fazê-lo sem aviltar a ti mesmo ou o material.

Que expressão nosso tempo exige? Nosso tempo não exige expressão alguma. Temos visto fotografias de mães asiáticas enlutadas. Não estamos interessados na agonia de teus destrambelhados órgãos. Não há nada que possas estampar em teu rosto que possa igualar o horror da nossa época. Melhor nem tentar. Só vais conseguir o desprezo de quem tem sentido as coisas profundamente. Temos visto nos noticiários homens no extremo da dor e do abandono . Todo mundo sabe que tens comido bem e também que estás sendo pago para estar em cena. Estás diante de pessoas que viveram uma catástrofe. Isto deveria deixar-te muito quieto. Fala as palavras, transmite os dados, não apareças. Todo mundo sabe que estás sofrendo. Não tens que dizer à platéia tudo que sabes sobre o amor a cada linha em que falares de amor. Sai da frente e eles saberão o que sabes, porque eles já o sabiam. Não tens nada a lhes ensinar. Não és mais belo que eles. Não és mais sábio. Não grite com eles . Não tentes entrar à força. Isto é sexo ruim. Se mostrares as linhas de tua genitália, então entregues o que prometeste. E lembra-te que as pessoas realmente não querem um acróbata na cama. De quê precisamos? De estar perto do homem natural, de estar perto da mulher natural. Não imagines que és um cantor amado com um vasto público fiel que acompanhou os altos e baixos de tua vida até este momento. As bombas, os lança-chamas, e toda a merda destruíram mais do que árvores e aldeias. Também destruíram o palco. Achas que tua profissão escaparia da destruição geral? Não há mais palco. Não há mais ribalta . Estás no meio do povo. Então sê modesto. Fala as palavras, transmite os dados, não apareças. Sê sozinho. Sê teu próprio quarto. Não te coloques à frente.

Isto é uma paisagem interior. É dentro. Privado. Respeita a privacidade do material. Estas peças foram escritas em silêncio. A coragem da performance é dizê-las. A disciplina da performance é para não violá-las. Deixa o público sentir teu amor pela privacidade, mesmo que não haja privacidade. Sê uma boa puta. O poema não é um slogan. Ele não pode te divulgar. Não pode promover tua reputação de sensibilidade . Não és um garanhão. Não és um assassino de mulheres. Há todo um lixo sobre gangsters do amor. És um aprendiz da disciplina. Não representes as palavras. As palavras morrem quando as representas, definham, e sobra apenas a tua ambição.

Fala as palavras com a exata precisão de quem confere uma listagem de lavanderia . Não fiques emotivo por uma blusa rendada. Não fiques de pau duro ao dizeres calcinha, não fiques todo arrepiado só por causa da toalha. Os lençóis não devem produzir uma expressão sonhadora em teus olhos. Não é preciso chorar no lenço. As meias não estão lá para te lembrar de estranhas e longínquas viagens. São apenas tuas roupas lavadas. Apenas tuas roupas. Não fiques espiando dentro delas. Use-as, apenas.

O poema não é nada mais que informação. É a Constituição do país interior. Se o declamares e o fizeres explodir com nobres intenções então não és melhor que os políticos que desprezas. És apenas alguém levantando uma bandeira e apelando à mais barata espécie de patriotismo emocional. Pensa na palavra como ciência, não como arte. Elas são um relatório. Estás falando em uma reunião do Clube de Exploradores da National Geographic Society. Essas pessoas conhecem todos os riscos do alpinismo. Elas te honrarão se não te esqueceres disto. Se ficares insistindo neles será um insulto à sua hospitalidade. Fala da altura da montanha, do equipamento que usaste, sê específico sobre as superfícies e o tempo que te custou a escalada. Não procures causar na audiência suspiros e ais. Se alcançares suspiros e ais não será um resultado da tua apreciação do evento, mas da deles. Virá das estatísticas e não do tremor da voz ou das mãos cortando o ar. Virá dos dados e da silenciosa organização da tua presença.

Evita o floreio. Não tenhas medo de parecer fraco. Não te envergonhes do teu cansaço. Ficas bem quando estás cansado. Ficas como poderias ser sempre. Agora vem para os meus braços . És a imagem da minha beleza.


In Death of a Lady's Man (1978) –
http://homepage.usask.ca/~mid422/lcmisc.htm
Tradução de Roberto Mallet.